Depois de alguns meses pensando e repensando na inserção de entrevistas no De Repente, resolvi propagar. #
A partir deste mês, postarei algumas das conversas que realizei durante a dissertação na graduação da Universidade, que envolve temas como Jornalismo, Jornalismo Online, Jornalismo Colaborativo e inserção do cidadão no processo informacional. #
Começo, então, com chave de ouro. Lúcia, mais conhecida como Lúcia Malla na blogosfera, conversou comigo e com o Rafa sobre viagens, Coréia do Sul, OhmyNews e, claro, Jornalismo. #
[Caso queira ouvir nossa conversa, acesse] #
Bióloga e, hoje, blogueira do Interney, mostra a experiência de uma brasileira na Coréia do Sul, próximo à época das transformações do país e mudanças presidenciais com grande interferência do OhmyNews, um dos ambientes virtuais envolvendo a colaboração mais importantes da web. #
1 – Qual foi o período que você viveu na Coréia do Sul e como você pode explicar esse caráter cultural digital da população e a interferência do OhmyNews na população? #
Morei na Coréia do Sul durante quase três anos. Cheguei ao país em janeiro de 2004 e deixei a região em outubro de 2006. Ah, claro, tudo a trabalho. Durante meu tempo de permanência no continente asiático, constatei algumas coisas. #

“OhmyNews provocou mudanças políticas na Coréia do Sul” #
Logo em primeiro ano na Coréia, percebi que o presidente Roh Moo-hyun foi eleito por uma geração totalmente digital, com instrumentos como ferramentas de blogs, fóruns de discussão e o OhmyNews. Tanto é que sua primeira entrevista como novo chefe de estado foi ao próprio OhmyNews. Isso foi um grande choque com a mídia tradicional da Coréia. #
2 – E a questão cultural do coreano. É bem diferente do brasileiro? #
Lúcia – Com certeza. Em 2004, eles (os coreanos) já tinham plena noção que todos os atos vistos nas ruas poderiam tornar-se noticias. Tem um episódio bem interessante que aconteceu no metrô e causou grande impacto aos sul-coreanos. #
Uma menina estava com um cachorro no metrô e seu animal simplesmente defecou no local. Ela, patricinha, simplesmente não limpou absolutamente nada e um senhor, de mais ou menos 60 anos, se agachou e fez o serviço da garota. #
Durante este momento, alguém gravou ou tirou foto de toda situação. Esse vídeo passou por todos os sul-coreanos e a jovem teve que mudar de cidade, nome, pois foi massacrada pela população, que respeita toda aquela questão da hierarquia. #
A situação com tecnologia é bem complexa e interessante. Eu e meu marido éramos vistos como extraterrestres por não termos um celular! Trabalhávamos juntos, no mesmo local e por isso não achamos necessário comprar um. Mas todos acharam bem estranho a não-aquisição de um aparelho. #
Até um senhor de 90 anos possui um celular e, durante sua passagem no metrô, brinca de jogos. É extremamente espantoso isso. Tudo se faz pela internet, hoje, na Coréia do Sul. O mundo virtual é forte. #
3 – Durante esses três anos de passagem na Coréia do Sul, você notou diferenças na imprensa considerada tradicional? #
Lúcia – Nenhum jornal é popular na Coréia do Sul. Eles lêem a notícia através de um celular. A notícia não chega mais pelo papel. Tudo por satélite. Olha, o único jornal que vi os sul-coreanos lendo foi o Metro. Este mesmo veículo que existe hoje no Brasil. #

Ler notícia no celular é lugar-comum na Coréia do Sul #
Mas é uma leitura apenas para durante viagens no metrô mesmo. Jornal de papel é considerado antigo lá. #
4 – E o OhmyNews. Existe uma versão impressa? #
Lúcia – Olha, existe sim. Mas em três anos nunca vi alguém lendo. Não sou aquela pessoa atenta, de olhar na banca de jornal. Posso estar errada, mas o que eu lembro é só conhecê-lo. #
5 – O ingresso digital da população alterou a formatação da mídia impressa? #
Lúcia – Hoje, os jornais sul-coreanos possuem aquelas chamadas notas curtas. Nada mais. Você quer ampliar sua leitura é só acessar a internet. E outra. Eles não tem tempo para ler tanta notícia. Isso é culpa da superinformação. #
Trabalham, em média, 12 horas por dia. O fato curioso é que nenhum funcionário pode ir embora antes do seu chefe. Por exemplo, caso seu chefe saía às 10 horas da noite, você deve sair depois. Enquanto isso, ocioso, o funcionário acaba navegando na internet, único lazer permitido durante a prática profissional. #
5 – A opinião pública sul-coreana é um grande objeto de estudo. O que você pensa sobre a formação do país? #
Lúcia – Eu tenho um ponto de vista crítico em relação ao sul-coreanos. Eles pensam muito coletivamente. Não há um espírito individual. É difícil você conhecer alguém com uma opinião diferente. É muito lugar-comum, entende? #
O que é lido na mídia torna-se argumento pessoal. A visão coletiva tem que ser sólida e deve permanecer. Tudo isso graças a educação severa, disciplinada e metódica. É engraçado a linearidade deles. Vocês acreditam que todos tiram férias na mesma época? #
Logo, há um período impossível de viajar. E tudo sem reclamar. Isso tudo foi um grande choque pra nós (Lúcia e marido). Dos países da Ásia, é o local mais difícil para a permanência do brasileiro. #
6 – O espírito coletivo foi ressaltado por você durante a conversa. Essa estrutura é vista na mudança da presidência do país e o OhmyNews foi determinante para reformulações na sociedade? #
Lúcia – Sul-coreano adora futuro. Futuro, na época, era o OhmyNews. Então, os sul-coreanos colocaram como objetivo a busca de eleger o primeiro presidente da Era digital. E se orgulham muito por isso. #
7 – A intromissão do OhmyNews pode ser considerada uma revolução? #
Lúcia – Eu acho que é uma grande revolução. Para a comunicação. O OhmyNews entrou para a história recente da Coréia do Sul. #
8 – Como foi a atuação do presidente sul-coreano “eleito” pelo OhmyNews? #
Lúcia – Olha eu não acompanhei muito esse período político, mas segundo as tradicionais conversas de trabalho, os sul-coreanos estavam descontentes com a política econômica de Roh Moo-hyun. Tudo era motivo para a criação de um escândalo no país. Até uma cirurgia plástica. #
9 – A queda de popularidade do até então presidente Roh Moo-hyun afetou o OhmyNews? #
Lúcia – Toda essa geração virtual começou a ser questionada.As pessoas mais velhas, respeitadas por todos os sul-coreanos, colocaram em dúvida o futuro do país com essa população jovem. Mas o resultado da democracia do local já veio. #

“Todos colocaram dúvida sobre o futuro do país com Roh Moo-hyun” #
A eleição do atual presidente (Lee Myung-bak, ex-executivo da Hyundai) confirmou a revolta de parte da população com as pessoas que elegeram Roh. Mas o OhmyNews continua e vai continuar como um sucesso. Sofreu problemas com injeção de dinheiro, mas é ainda bem respeitado. #
10 – O OhmyNews é mais importante na Coréia do Sul ou no exterior? #
Lúcia – Sinceramente, só ouvi falar do OhmyNews na Coréia do Sul. Antes de viajar para o continente asiático, vivi no Havaí. Lá, pelo menos, nunca tinha ouvido falar dele. Mas isso é uma questão muito pessoal e fragmentada. Depende do interesse de cada pessoa. #
Quem gosta e estuda jornalismo, é obrigatório conhecê-lo. Hoje, o OhmyNews tem um retorno, mas sua situação financeira não é agradável. Fizeram até uma escola agora lá (risos). #
11 – Chegou ao outro tema de nossa pergunta. A escola de Jornalismo Cidadão. É outro projeto interessante e de aspecto “revolucionário”? #
Lúcia – Sabe a escola de funcionários do McDonald´s? Eu vejo isso. Mas de uma forma um pouco mais aberta. Mas é uma iniciativa ao menos engraçada. Eles instalaram uma escola no meio do mato. E levam as pessoas ao local para produção de conteúdo. #
Mas você não concorda que pode produzir isso em qualquer lugar? Mas ainda acredita que muita informação esteja em uma rua, por exemplo. O confinamento só prejudica a colaboração. #
10 – Mas a criação de uma escola de Jornalismo Cidadão não é uma resposta às faculdades de Jornalismo? #
Lúcia – Não sei. Sinceramente nem sei como é o processo de uma faculdade de Comunicação. Quando li a notícia sobre a inauguração da escola de Jornalismo Cidadão. lembrei do McDonald´s. Mas isso é um ponto de vista de quem estudou em Universidade Federal. #
Quando estudava, a diversidade cultural e de informação era imensa. Hoje, é diferente. Uma escola de Jornalismo Cidadão está subordinada a algumas coisas. #
A liberdade de expressão é fragmentada. Você deve seguir regras. Mas não tenho uma visão de uma escola de Jornalismo. Enfim, a Coréia do Sul é um país curioso. Todos são iguais e quase não há desigualdade. Todos possuem um carro, uma casa, um celular.
#



