A Fórmula da Televisão

Na Campus Party, conectado numa banda de 10Gb, pude constatar as maravilhas de poder assistir o que quiser sem solavancos e tempo de espera.

Não tenho dúvida que a plataforma do futuro para a veiculação de programas audiovisuais é a internet.

Assistiremos jornais, documentários, seriados, novelas transmitidos pelos caminhos da rede IP. Acredito nisso porque a internet proporciona muitas vantagens: qualquer pessoa pode ser um produtor e transmissor, assisto o que quiser na hora que quiser (on demand), tenho o potencial de interagir com o conteúdo e com outros espectadores, aos poucos o meio vai se mostrando lucrativo para os profissionais produtores de conteúdo, etc.

Como vimos aqui no blog “as mídias tradicionais estão encontrando novos modelos de negócio para poder se enquadrar na realidade online”. No entanto, nesse cenário de exaltação da internet, faço um contra-ponto e revelo agora o porque de achar que a televisão aberta brasileira, uma mídia tradicional de rádio-difusão, ainda apresenta muitas vantagens em relação às soluções da WWW.

A fórmula da televisão aberta no Brasil.

1. Ubiquidade: A TV está na padaria, no buteco, na escola, na sala. No Brasil mais de 90% das residências possuem um ou mais televisores. Quanto tempo será que vai levar até que todos os brasileiros tenham um computador e acesso à internet?
2. Serviço gratuito: Não pagamos para assistir televisão aberta. O acesso à internet (cabo, DLS, 3G, etc) está controlado pelas grandes companhias telefônicas com seus planos mensais e pacotes de dados.
3. O que importa é o programa: Enquanto a internet faz dinheiro com agregadores de conteúdo a televisão dá enfâse para o conteúdo em si.
4. O espectador quer ouvir histórias: Gostamos da televisão porque queremos ouvir histórias bem contadas. Os seriados norte-americanos, as animações japonesas, as novelas brasileiras são ótimas histórias contadas por profissionais de diversas áreas. Essas produções muito dispendiosas só sobrevivem no modelo de negócio da televisão. As produtoras ainda procuram uma forma de veicular seus programas na internet de forma lucrativa.
5. O audiovisual prevalece na TV: A internet ainda é uma linguagem textual, enquanto na televisão temos a excelência na imagem sonora e visual.
6. Compromisso com a informação e com a qualidade: Canais de televisão são cobrados pelos espectador – que procuram seriedade e qualidade. Os profissinais da TV respondem pelos seus atos e estão sendo julgados pelo consumidor.
7. Modelo de negócio: Quem mantém a indústria televisiva brasileira é o patrocinador. A internet ainda não definiu exatamente como ganhar dinheiro: Quem paga? O patrocínio ou o usuário? O fracasso da TV a cabo no Brasil talvez seja uma resposta para essa pergunta.
8. Uma indústria forte: A televisão aberta é formadora de opinião e faz parte do dia-a-dia do brasileiro. Como veiculo de massa construiu um enorme parque técnico e um contingente de profissionais especilizados.
9. Uma indústria inteligente: As mídias tradicionais estão produzindo para a rede. Mas elas não podem simplesmente adaptar seu conteúdo para a internet, por isso aos poucos vão sendo implementados novos layouts, novos níveis de interatividade e novas linguagens. No exterior e aqui no Brasil as grandes emissoras de rádio-difusão já estão criando conteúdos para as plataformas online e mobile. Com isso criam novos nichos e divulgam sua grade de programação – aumentando a audiência dentro e fora da TV.
10. A implementação da Televisão Digital: Melhora na recepção e na qualidade do sinal, vai trazer a mobilidade, a portabilidade e a interatividade (muito limitada, é verdade). Vamos assistir televisão no carro, na fila do banco, correndo da chuva. Tudo isso sem pagar nada. Será que com a implementação do Wi-Max (serviço de internet sem fio para grandes centro urbanos) teremos um acesso móvel, portátil, interativo que funcione? E será que pagaremos por ele?

Comparar TV com web é igual comparar maças com laranjas. São mídias distintas. O bacana é analisar as tendências, questionar os meios como produtor e espectador e levantar questionamentos que parecem revelar que a solução esta realmente na convergência.

Foto: Flickr

This entry was posted in midia, reflexoes and tagged , , , . Bookmark the permalink.
  • ARM

    Penso que talvez, assim como os governos entraram no serviço de televisão pública, seria interessante, proporcionar este serviço ao consumidor, porém é como vc disse, tem de a tornar rentável, pois um satélite para cada coisa, ainda. E sinceramente ñ sei se a televisão brasileira usa, satélite próprio ou se o serviço é teserizado?
    Já a qualidade do sinal, qto melhor, mais cara é a tecnologia usada, a internet, ainda é usada como um meio, mais, entretenimento, mesmo em países desenvolvidos a tecnologia + internet, ñ andam juntas como estudante e caderno. Desenvolvesse softwares e hardwares, para nichos específicos, mas não para intercomunicação para áreas especificas.
    Um exemplo disso, é a Microsoft que está sempre, aperfeiçoando, seus softwares, e sempre vendem, o Vista, quando foi lançado muitas pessoas tiveram que voltar a usar a versão anterior, pois o software era demasiado pesado para o Disco Rígido dos computadores. Concordo com teu contra-ponto, mas para mudar o panorama atual da net, cabe aos especialistas da área, e o problema é que os independentes ou desvinculados das grandes empresas ligadas ao serviço, ñ possuem ousadia, afinal de contas o Tim Bernes-lee, chegou a ser proíbido de usar os computadores de Oxford, quando fazia suas investigações, e ainda não era formado… Eles estão presos ao concreto net, e ñ olham como o caminho que a web faz até chegar a nossa casa, e estou falando da camada atmosférica.

  • http://gedigi.net/merafalacia bruno neyra

    cara, acho que o ponto 6 é válido para a internet, mas não para a tv. para um programa de tv ser pressionado exigiria um esforço tremendo que é raro de ser visto. um site sofrer um backlash dos seus usuarios é comum, apesar de ser muito fácil pular fora do site ir pra outro. a tv tem condições geográficas e de ritmo muito interessantes, não acho que seja de se jogar fora. mas pelos mesmissimos argumentos de mercado, acho que a internet tem espaço pra algo não-comercial, algo que signfica mas não se compromete com publicidade, governo ou qualquer outro poder produtor.

  • http://derepente.com.br Rafael Sbarai

    @Bruno Neyra,
    Eu concordo com o aspecto seis, por exemplo. Acredito que a própria internet fará com que a programação da tv e, obviamente, seus apresentadores, produzam modelos cada vez mais perfeitos.
    A colaboração, o You Tube, estão aí como “grandes rivais”. Com pequena produção, seja ela amadora, é possível realizar feitos que demoraram anos para serem visualizados na tv, por exemplo.

  • Cauã

    Também concordo com o Bruno e Sbarai, aliás, defendo o ponto de vista que na internet é que as audiências são mais críticas. Preciso aqui também dar os parabéns para o Felipe, ainda não há motivos concretos para apostar na internet no lugar da TV, como já está se fazendo no Reino Unido. Apesar de a liberdade da internet para regular programação ser impressionante, a maioria ainda sente a necessidade da sazonalidade, isso para se inserir num contexto de coletividade, como por exemplo, na hora da novela ou do jornal nacional, todos estão vendo a mesma coisa, se informando ou entretendo da mesma forma. Isso movimenta assuntos e inclui o espectador em algo. Acredito na migração para IP, mas me questiono se isso irá acabar com conteúdos devidamente orquestrados. Neste ponto acho que a web irá adotar muitos modelos da TV, reproduzindo por IP o que ocorre na telinha, simplesmente pelo fato de as pessoas não estarem prontas para abandonar esse modelo que dá certo tem muito tempo.

  • Felipe Jannuzzi

    Oi pessoal. obrigado pelos comentários.
    @ARM as emissoras de TV aberta (Globo, SBT, BAND, etc) são de rádio-difusão. Isso quer dizer que elas tem antenas que emitem ondas eletromagnéticas de rádio-frequência (tipo aquelas antenas na Av. Paulista). Apesar de concordar com vc que existe um certo conservadorismo, também acho que tem muita coisa acontecendo de forma dispersa e desorganizada. Por exemplo: A TV Digital é um avanço tecnológico interessante, que influência no conteúdo televisivo, mas sua estratégia de implementação é uma palhaçada.
    Os meus 10 tópicos analisam mais o potencial do meio e não a realidade. (já que depende de política, economia e cultura) – A maioria dos brasileiros nem sabe o que é TV Digital? E será que eles sabem o que é e-mail? Google? WWW? Dúvido.

  • Felipe Jannuzzi

    @Bruno Neyra, @Sbarai e @Cauã vcs têm razão, formulei mal o tópico 6. O que quis dizer é que na internet, às vezes, o compromisso com a realidade e a qualidade é relevado em função da praticidade, velocidade, popularidade e anonimato – e isso acontece porque a net é um espaço compartilhado por profissionais e amadores da informação. O meio ainda não é uma fonte precisa – ainda existe preconceito dos usuários e da própria mídia tradicional. Ou você confia em tudo o que lê no Wikipedia? Eu as vezes me questiono.
    Na internet eu posso postar um vídeo no youtube zoando a Cicarelli, forjando um atentado terrorista no Rio e decretando o fim do carnaval na Bahia. O máximo que vai acontecer é o meu programa ser criticado e tirado do ar – sem danos pessoais e economicos maiores. Agora imagina se dá a louca na Fátima Bernardes e ela decide, em plena transmissão, declarar que gosta de tomar umas cachacinhas com o Willian Bonner nos fins de semana – é o fim dela, porque fugiu do script da excelente âncora de meia idade, classuda e mãe de família. E isso pra Globo pode ser um baita prejuizo.
    Um exemplo: Veja o que aconteceu com o Gugu depois daquelas notícias sobre o PCC. Foi quase o fim do pintinho amarelinho.
    Mas sim, a internet está mudando. Aos poucos profissionais e amadores responsáveis querem contribuir para a divulgação dos fatos de forma honesta e precisa – cabe a cada usuário da rede saber onde procurar suas fontes e criticar quando acha que algo está errado (é um ponto positivo pra internet – as críticas podem ser instantaneas com repercursão imediata).
    Mas a transição deve ser feita com cautela, principalmente para os grandes redes de informação como a CNN, que ao usar a internet como plataforma de transmissão e jornalismo colaborativo deve checar ainda mais suas fontes e a veracidade da notícia. Como mostra o excelente post do Rafael: http://derepente.com.br/2008/10/06/a-suposta-morte-de-steve-jobs-e-o-perigo-do-furo-no-ireport/
    O nosso papel além de informar e opiniar e também filtrar e abater aquilo que nos desrespeita. O derepente mais uma vez mostra que é espaço pra isso com mais um post do Rafael Sbarai: http://derepente.com.br/2007/07/19/a-farsa-do-uol-e-jornalismo-colaborativo/
    É isso ai! derepente.com.br na luta…
    abraços e obrigado

  • http://tialuso.blogspot.com Raul T.

    Felipe:

    Todos os pontos que você colocou não são possíveis também pela WEB ? No meu ponto de vista e experiência acho que são sim. E a WEB nos traz uma vantagem sobre a TV Aberta: livre arbítrio.

    abs
    Raul T.
    —————————–
    http://tialuso.blogspot.com
    http://www.soluttia.com.br

  • Felipe Jannuzzi

    Olá Raul, acredito que um dia possa ser possível sim.
    Mas coloco no meu post alguns questionamentos: Quando vc acha que teremos acesso gratuito à internet? Sem ter que pagar e ter um sinal de qualidade nao apenas em SP, mas no restante do país? Espero que nao demore.

  • http://tialuso.blogspot.com Raul T.

    É Felipe… a maior questão mesmo é o tempo. Ai concordo plenamente contigo.

    Ouço rumores a muito tempo sobre a mudança no modelo de negócios das operadoras de acesso. Que vão passar a cobrar por trafego sem franquias, que vão aumentar as velocidades, etc, etc, etc. Mas infelizmente vivemos num país onde o anti-trust não funciona muito bem né ?

    Difícil falar sobre tempo: mas espero junto com você que não demore mesmo.

    abs
    Raul T.
    —————————–
    http://tialuso.blogspot.com
    http://www.soluttia.com.br

  • ARM

    Felipe, tudo bem?!
    Pois é, também, infelizmente, tenho que concordar com vc, a maioria dos brasileiros ñ sabem diversas coisas tecnológicas, mas isso só mostra, não a falta de conhecimento de tecnologia, mas sim a falta de meios de adquiri-lo é mas uma questão económica mesmo, e educacional … ou seja métodos políticos antiquando que só servem para caracterizarem o nosso país como terceiro mundo.

  • ARM

    Olá Felipe! Tens conhecimento nessa área, achas aplicável que por meio das telenovelas, séries e outros meios de vídeo ou mecanismo visual, de os realizadores ou escritores, ñ sei se há outro termo profissional, que para além dos modismos, sexo, sol e praia da nossa dramaturgia, fossem também um veículo de Inserção Social às Ferramentas Tecnológicas. Pois na dramaturgia de Hollywood, para além da violência, sexo e violência, ver-se a utilidade de ferramentas tecnológicas no quotidiano dos personagens. Embora essa não seja uma linear, termos de utilidade, em toda população Americana ???

  • http://derepente.com.br Felipe Jannuzzi

    Oi ARM. O discurso político para a implementação da TV Digital era que ela iria proporcionar a Inclusão Digital. Pra mim é uma certa demagogia pq só existe inclusão quando todos têm acesso as seguintes ferramentas: internet, softwares livres e computadores. A TV Digital possue: um set-top-box que podemos dizer que é um computador, ela tem tb softwares livres (Ginga), mas ela não almeja a internet, já que nosso serviço é de rádio-difusão (a principio nao teremos um canal de retorno – veja que o Ginga possibilita o canal de retorno – mas pra isso os usuários vão precisar de uma conexão IP e um set-top-box com uma saída para a rede).
    Agora sobre os conteúdos acho que eles podem sim ajudar nessa inclusão. Por exemplo: Seria legal se as emissoras divulgassem através de mensagens publicitárias o que diabos significa essa transição para o sinal digital. Acho que já seria um bom começo.
    Os filmes, novelas, seriados até podem fazer enredos sobre personagens que utilizam das mais variadas tecnologias – o problema é que se a população não tem acesso, vai parecer um filme do James Bond ou uma ficção científica.
    Obrigado pela pergunta, espero ter respondido.
    grande abraço

  • http://osentidodomedo.blogspot.com/ Rafael Morawski

    Criei e registrei um dos maiores Reality Show.
    Estou divulgando a procura de um canal interessado em ver o projeto.
    Para saber mais posso enviar o projeto para o canal que se interessar em apreciar, você também pode acompanhar o blog do Reality pesquisando no google por : O SENTIDO DO MEDO ou acessando o link abaixo, mas sabe como é, hoje as pessoas tem medo de vírus, então vai pelo google mesmo.

  • luiz galvão

    E o que dizer da IPTV meu amigo..veja na Inglaterra…vc acredita em papai noel da tv digital ainda é..e como modelo de neg´cios???

  • Felipe Jannuzzi

    Luiz
    IPTV, assim como satélite, cabo e rádio-difusão também é uma plataforma para TV Digital. E como escrevi no post: Acredito que seja a plaforma do futuro por inúmeros motivos. E sim, é um modelo de negócio MUITO interessante, é não apenas para televisão.
    Mas apesar de acreditar no IP, não podemos simplemente defender uma tecnologia sem uma contextualização. Brasil é diferente da Inglaterra. Nosso país é maior, nossa população é muito mais pobre, novas tecnologias demoram para se implementar, o acesso à internet ainda é caro e restritivo, etc…
    Grande parte da população assiste TV por rádio-difusão (Globo, Band, SBT, etc) por ser a única opção. É esse modelo de negócio se tornou lucrativo, vai se digitalizar e tem um potencial muito grande de continuar atingindo muita gente.
    Do outro lado estão as teles – muito mais ricas que as emissoras de TV – que investem em serviços e infra-estrutura. Mas nessa briga não adianta só ter dinheiro. Quem tem que compra-la e propor novos modelos são as indústrias, os publicitários e os produtores de conteúdo.
    Eu, como roteirista e produtor multimidia, publico minhas coisas na rede e luto para que um dia todos tenham acesso livre e gratuito. Como empreendedor acredito no futuro do IPTV, mas vai demorar um bocado aqui no Brasil.

  • http://www.gabrielabarreto.wordpress.com Gabriela

    Só sei que em relação a tudo isso, a mim interessa apenas que eu possa assistir minhas séries e programas de tv favoritos no momento que a mim me for conveniente. Só com isso já estou feliz.