Michael Jackson, 11 de setembro e a informação

Não tem como não tocar no assunto que paralisou o mundo nas últimas 24 horas: Michael Jackson morreu – de forma um tanto quanto inesperada – aos 50 anos de idade por uma parada cardíaca.

Até então, todo mundo já sabe disso. O que me motivou inicialmente  a escrever este post foi o porquê de “todo mundo  já saber disso”, apenas algumas horas depois do ocorrido?

Entusiastas provavelmente encheriam o peito para afirmar que a informação tem essa velocidade de atingir as pessoas hoje por causa da internet. Eu iria mais adiante. Ou menos adiante: a velocidade da informação já atingiu, para nós, seu limite há um bom tempo, e a internet não é o principal fator disso.


Difícil de acreditar que realmente aconteceu

Para explicar faço uma analogia com o 11 de setembro: quando a notícia de que o primeiro avião atingiu o WTC veio à tona  eu estava num hotel na Costa do Sauípe para assistir o Brasil Open (sou um grande fã de tênis). Coincidentemente a TV do quarto estava ligada. Eu me lembro bem: em menos de 10 minutos depois do acontecimento já havia uma cobertura no local comentando e especulando sobre o ataque terrorista.

A mobilidade da mídia permitiu que o segundo avião virasse um espetáculo macabro transmitido ao vivo para o mundo. Foi impressionante. O mundo parou e em função da velocidade com que as informações apareciam na TV: em poucas horas só se comentava isso. Todos os estabelecimentos da Costa do Sauípe tinham a TV ligada na cobertura do ataque durante o torneio inteiro. Eu e meu pai vimos os jogos, claro. Mas o 9-11 foi o que marcou a viagem.

Em 2001, a internet ainda engatinhava. E hoje, é jargão nos meios de comunicação afirmar que a informação trafega cada vez mais rapidamente em função dela. Do ponto de vista da capacidade de atingir as pessoas em geral talvez isso não seja tão verdade. A informação já é rápida – muito rápida – há um bom tempo.

Homenagem um tanto quanto inusitada ao astro

E isso é interessante: dessa vez, fiquei sabendo da morte do Michael Jackson pelo twitter. Despretensiosamente tentando aumentar meus seguidores num fim de tarde chuvoso micro-posts  sobre a possível morte do astro começaram a surgir de várias fontes. Em poucos minutos e depois do ‘furo’ da TMZ, vários sites de notícias começaram a especular e a cobrir o acontecimento (aproximadamente às 21hs já havia mais de 1000 artigos publicados sobre o tema).  Logo após os rumores, liguei a TV e a Globo estava com um plantão relutando em confirmar a morte.

Confirmada ou não a informação já estava efetivamente lá. Minha mãe chegou em casa do trânsito logo em seguida falando “Você viu?”. Ou seja, no rádio também só se falava nisso. A maioria dos outros canais de TV também se mobilizava.

Enfim, o que me fez pensar um pouco foi que a informação já trafega de forma quase instantânea há um bom tempo. Estamos de certa forma conectados instantaneamente com a informação muito antes da popularização da internet. Tragédias como o 11 de setembro e a morte de Michael Jackson são exemplos disso. A TV ainda mantém o trunfo de “juntar” 40 pontos de audiência de pessoas todos os dias na frente de sua tela para ouvir cariocas falando “namashtê” depois do tradicional noticiário das oito e pouco. Ela ainda é a principal fonte de assunto na sociedade brasileira. Novelas, jornais, futebol ainda têm na TV sua maior plataforma de contato com o público.

E isso nos traz a um ponto central na discussão: por que o Jornal Nacional só confirmou a morte quase no final da edição de ontem? De cara eu pensei que manter o suspense da confirmação de algo que já era fato na internet pelo menos meia hora antes do começo do jornal era uma manobra para mobilizar e atrair a audiência. Pode ser. Mas enquanto escrevia esse post percebi que talvez a questão seja menos, digamos, perversa: diferente de um site de notícias na internet que tem mobilidade e capacidade de atualização instantânea e uma audiência extremamente volátil e dinâmica, o Jornal Nacional tem uma única edição diária e a responsabilidade de trazer notícias a milhões de brasileiros que o têm como sua fonte principal de informação.

Responsabilidade e compromisso com milhões de espectadores: pelo menos em tese

Se o Jornal Nacional publica a confirmação da morte de Michael Jackson sem ter uma fonte segura e isso resulta em não ser verdade eles podem abalar um compromisso de credibilidade que têm com uma audiência muito mais tradicional e massiva no Brasil.

Com a internet potencializou-se, sem dúvida alguma, a capacidade de articulação e de troca de informações no mundo inteiro. As pessoas estão muito mais conectadas diretamente entre si etc. Mas não podemos negar a importância ainda gigantesca da televisão:  eu arrisco dizer que ela ainda é nosso parâmetro principal de percepção do mundo.

Quem sabe as próximas gerações não tenham um entendimento do mundo mais moldado pela internet. Os resultados disso ainda estamos por ver. Mas no que condiz à informação, ainda estamos inquestionavelmente acondicionados pela televisão.

A Internet ainda engatinha no Brasil como fonte de informação segura e de credibilidade.  E mesmo ainda sendo uma ‘criança precoce‘ já mudou nossa sociedade de várias maneiras. É preciso ter um pouco de calma para que ela não cresça traumatizada com seu sucesso estrondoso tão cedo e acabe virando notícia no plantão do Jornal Nacional.

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  • http://www.derepente.com.br Felipe Jannuzzi

    A morte dele realmente foi uma surpresa. Fiquei sabendo pelo rádio – que pegou a informação da internet.
    Mas engraçado que só foi a ficha quando assisti a declaração seguida de imagens e fotos no Jornal Nacional.
    Vendo a TV ainda esperava alguma noticia mais animadora. Mas infelizmente o divulgado na rede foi confirmado.

  • Erika Neves

    Ótima reflexão, Nikolas! ;-)

  • http://fiztv.uol.com.br/f/Usuario/index/10553 Nikolas Maciel

    @ Felipe
    Cara, foi exatamente o mesmo sentimento que eu tive! Exatamente o mesmo. Vi a notícia na internet mas pensei “não, imagina! Na TV vai ter alguma notícia mais animadora ou vão falar a verdade”…
    Quando vi no Jornal que ele tinha morrido aí sim bateu a tristeza de verdade.

    Sem contar que foi muito de repente isso ne? Não era algo esperado…

  • http://fiztv.uol.com.br/f/Usuario/index/10553 Nikolas Maciel

    @Erika
    Muito obrigado!

  • Welton Trindade

    Nossa, que maravilha ver um texto com o reconhecendo do poder ainda da TV. Sou estudante de mestrado na PUC-SP e sofro “discriminação” por estudar TV e ainda mais novela. Parece, para os modernóides, que televisão é algo fora do mundo, que já não influencia nada. Só tweets importam. E estamos longe de isso acontecer. Twitter no Brasil: 650 mil usuários. Enquanto isso: a média de audiência da novela das oito da Globo é, praticamente, o número de usuários de internet no Brasil. Nem falo dos que vêem TV.

  • Nikolas Maciel

    @ Welton Trindade
    Realmente é impressionante como alguns valores tendem a se inverter nas classes mais letradas do Brasil (e falo isso com um enorme quê de auto-culpa). A TV deveria ser um de nossos maiores orgulhos: somos um dos maiores e mais competentes polos produtores de conteúdo dessa que é uma das mais tradicionais e consolidadas mídias do mundo. Mas, existe uma resistência muito grande em se refletir sobre ela nas universidades.
    No meu ponto de vista, existe sim muito o que melhorar no conteúdo e na forma como se faz a programação da TV brasileira, mas ao ignorá-la em termos intelectuais não contribuímos em absolutamente nada e agimos de maneira infantil e preconceituosa. Aliás, este é o perfil de muitos órgãos acadêmicos do Brasil que encaram a TV como algo menos nobre e refinado do que o cinema ou as artes plásticas.
    Ironicamente, no entanto, isso tende a se esmaecer (e quem sabe não se reverta) uma vez que com a TV digital e a possibilidade da Multiprogramação toda essa “elite” cultural brasileira passará a enxerguar na TV uma porta de visibilidade e contato com o público para sua produção. Quem sabe então, o curta-metragem passe a ‘existir’ propriamente dito e a fazer parte da cultura do brasileiro de maneira mais abrangente.

    Nah!

    Mesmo assim, parabéns pela pesquisa. Gostaria de conhecê-la quando pronta!