Nas últimas semanas, o mundo acompanhou a mais nova tentativa de cerceamento do uso do Twitter, ferramenta de comunicação criada em 2006 e alvo de inúmeras experiências repressivas executadas por governos ditatoriais (falei sobre o assunto em uma reportagem de VEJA, em parceria com Jadyr Pavão Júnior). Na oportunidade, o Egito se juntou a nações como Irã, Hong Kong e China, deixando usuários do microblog no país sem acesso algum ao site, impossibilitando assim o que os especialistas consideram como “coordenação de passeatas e manifestações”. O motivo do apagão eletrônico no país africano é evidente: milhares de pessoas foram às ruas protestar contra o governo de três décadas do presidente Hosni Mubarak, de 82 anos. A campanha, reconhecida pela mídia como “organizada pela internet”, foi inspirada na rebelião que derrubou há poucas semanas o ex-ditador tunisiano Zine el Abidine Ben Ali. #
A estratégia reacendeu uma chama que já fora acesa – e apagada rapidamente – em diversas ocasiões: o ativismo on-line e a mobilização em dispositivos tecnológicos como mecanismos propulsores para a criação de uma revolução. O Twitter e/ou a web promoveria ou já promoveu uma revolução? Simultaneamente ao avanço dessas plataformas, cresce o cerco à criação de dois tipos de especialistas na área: os “ciber-utópicos” e “ciber-céticos”. A linha de pensamento – e de questionamento – de cada área é, no mínimo, plausível. Contudo, você percebe que ambos estão errados. Na ocasião, há muito otimismo – e muito nihilismo. #
Transferir situações do mundo virtual para o real, talvez, não seja uma tarefa mais fáceis. Que diga o vocalista Tico Santa Cruz, da banda Detonautas. Em dezembro, o músico clamou aos mais de seus 55.000 seguidores no Twitter uma manifestação nas ruas contra o abuso do poder político. No fim, conseguiu reunir de 20 a 30 pessoas, em São Paulo. Inversamente proporcional ao ato, Tico ganhou 3.000 novos seguidores em seu perfil, um dia após a válida tentativa de protesto. Em média, 500 pessoas começam a seguir o vocalista diariamente. Vozes veladas virtuais ficaram admiradas com a iniciativa, mas preferiram apenas acompanhar o fato do lado virtual. #
Mesmo assim, renomados pesquisadores e publicações como The Guardian e Washington Times sacramentaram a ocorrência de inúmeras revoluções produzidas pelo Twitter com o objetivo ou tentativa de protestos para derrubar governos. Até cogitaram a possibilidade do Twitter ganhar o prêmio Nobel da Paz. É o símbolo da exacerbação. Diz o pesquisador iraniano Hamid Tehrani, que minimizou os fatos ocorridos em seu país, em 2009, durante as reeleições presidenciais. “Houve uma sobrevalorização do Twitter. O país contou com menos de 1.000 usuários ativos. O maior volume de informações propagadas no microblog veio do Ocidente, de pessoas que não estavam no local. Quando alguém comentou que havia 700.000 pessoas protestando em frente a uma mesquita, descobriu-se que apenas cerca de 7.000 pessoas compareceram”, escreveu. #
Pronto. Foi um balde de água fria para a aparição e, porque não, um cenário para o crescimento vertiginoso de “ciber-céticos”, pensadores e pesquisadores que, antes, viviam ministrando aulas em importantes universidades sem abrir a boca para o assunto. Com um leve amadurecimento da web – e de seus próprios usuários – essa linha de pesquisa começa a ganhar força. #
Os maiores símbolos de que a web, por si só, não faz revolução já são conhecidos da mídia. Malcolm Gladwell, jornalista e escritor canadense, abriu uma grande discussão no fim de 2010 sobre a importância do Twitter em casos como o do Egito – e usou um argumento, digamos, fraco. Gladwell acredita que o ativismo em sites como Facebook e Twitter provém de vínculos fracos, sem a possibilidade de correr riscos reais como antigos militantes, unidos por vínculos fortes e de alto risco. Engano. #
Em 2004 – e dias após o atentado na Espanha -, o vínculo de laços fracos promoveu, em poucas horas, uma supreendente derrota do presidente do país, José Maria Aznar, candidato à reeleição do pleito. Aznar fez daquelas necedades que devem estar listadas em obras que ensinam trabalhar com política: ocultar fatos que rapidamente apareceriam. #
Na ocasião, a arma letal foi uma mensagem de texto (SMS) que desmentiu Aznar posteriormente sobre os responsáveis aos ataques de 11 de março, em Madri. #
O bielorusso Evgeny Morozov, que recentemente publicou uma obra que merece ser lida – The Net Delusion -, integrou recentemente a lista dos “ciber-cético”. Professor da Universidade de Stanford, Morozov é figura carimbada em entrevistas e reportagens publicadas no exterior graças às chamadas fortes e sensacionalistas de que o Twitter, por si só, não salvaria o mundo. De fato. Nenhum personagem na história recente do mundo contemporâneo salvou o mundo. E não seria – ou é – o papel da ferramenta produzir este tipo de situação. Redes sociais ou canais de informação servem para conectar pessoas – como é o caso dos blogs, também. #
Para Clay Shirky, talvez o mais ponderado e correto dos tantos pesquisadores que propagam verdades e boatos na web, o “potencial das redes sociais como Twitter e Facebook é real e reside no apoio à sociedade civil e da esfera pública. No entanto, esses sites não são a revolução, fazem parte do processo”. #
De fato. A revolução não será tuitada, conforme acredita Gladwell. Mas, entre tantas presciências, há uma certeza: ela passará pelo Twitter. #
Foto: marctonysmith





