Na noite da última terça-feira, o Google anunciou uma importante mudança em sua política de privacidade ao unificar os termos de serviço de seus produtos – mais de 60 conjuntos de regras serão substituídos por um único texto. Segundo o gigante de buscas, o novo termo de uso, disponível oficialmente a partir de primeiro de março, busca facilitar a experiência do usuário na rede. Puro eufemismo. Por trás da simplificação adotada pela empresa, há uma estratégia de monetização de conteúdo que endossa a tese de que o conteúdo – e seu próprio cliente – tornaram-se produtos valiosos aos anunciantes. #
Disponível para consulta em 44 idiomas, inclusive em português, a nova política de dados privados é uma espécie de prestação de contas aos usuários de internet, revelando quais informações o Google coletará junto aos perfis e como esses conteúdos serão usados. Caso o usuário não concorde com o modelo, não há alternativa: será obrigado a desativar ou abandonar os serviços do gigante de buscas. #
Com a nova estratégia, a companhia terá a possibilidade de cruzar informações fornecidas pelos mesmos usuários em serviços distintos e adequar, de forma mais eficiente, os anúncios exibidos ao gosto e necessidade dos próprios adeptos dos produtos. O objetivo, claro, é vender isso a um preço bem mais salgado. #
Sendo assim, a companhia mostra, mais uma vez, que não é apenas uma empresa de buscas e consegue, depois de 13 anos de vida, criar sua primeira plataforma unificada de dados, dando início a mais uma nova batalha contra Apple e Facebook, oponentes que já têm em seu DNA informações agrupadas de terceiros. Mas, a iniciativa – que ainda está no papel – já é observada com certa preocupação por órgãos regulatórios, que acreditam que as políticas de privacidade da empresa possam ser afrouxadas. Na ocasião, o temor data de 2007 e tem origem em uma das plataformas de maior sucesso na internet, o Facebook. #
Na época, a rede social de Mark Zuckerberg introduziu o Beacon, um sistema de publicidade direcionado que logo foi desativado por expor a terceiros dados pessoais de adeptos ao site. Para fugir deste problema, o Google já criou o seu antídoto: ser taxativo. “Não vendemos informações pessoais de nossos usuários. Não fazemos isso, ponto final”, informa a empresa no manual de políticas e princípios. #
À rotina do usuário na internet, o Google garante que as reformulações que serão introduzidas facilitam tarefas na rede, como realizar pesquisas em seu próprio site de buscas. Para tanto, combinará interesses expressados em três plataformas – a rede social Google+, o serviço de email Gmail e o site de vídeos YouTube – para apresentar resultados com maior precisão. Mas essa prática, considerada benéfica por evitar o tempo dos usuários, pode ser perniciosa. #
Em sua última obra, The Filter Bubble, o americano Eli Pariser faz ácidas críticas aos mecanismos apoiados em algoritmos que, ao reunir informações sobre pesquisas anteriores, delimitam o resultado de buscas futuras. “Em longo prazo, podemos ficar expostos somente a ideias que confirmam aquilo em que já acreditamos. Perdemos a oportunidade de descobrir o novo”, afirma. #
A comodidade digital que será fornecida pelo Google, portanto, pode deixar o usuário acostumado a ler apenas o que lhe agrade, pertencente apenas a um círculo restrito de amigos, sem ao menos conhecer um mundo discordante. É o gigante de buscas ingressando a primeira bolha, na qual dificilmente o usuário consegue sair. #
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