
Hulu, em mandarim, tem dois interessantes significados: um provém do provérbio chinês, que descreve o detentor do espaço destinado às coisas preciosas. Em um sentido secundário – mas não menos importante – o define como gravação interativa. A carga semântica, talvez, seja suficiente para explicar o sucesso de um serviço virtual que leva seu nome. Nas últimas semanas, o Hulu, site que exibe legalmente na web sucessos como The Glee – e principal rival do YouTube – foi alvo de gigantes do setor. Em menos de 20 dias, Yahoo, Apple e Google demonstraram interesse no produto, avaliado hoje em dois bilhões de dólares. Por ora, tudo especulação, apesar de parte de seus próprios controladores – um conglomerado formado por gigantes do setor do entretenimento – admitirem a venda. A recente e acirrada concorrência, no entanto, traduz o momento em que se discute o futuro dos vídeos na internet. Sobretudo, o poder do Hulu.
Lançado oficialmente em março de 2008 – após passar um ano por uma série de testes -, o Hulu é criação de uma parceria entre os canais de entretenimento Disney, NBC, Fox, para veicular gratuitamente na web os episódios mais recentes de programas de sucesso logo após a transmissão pela TV. Sua receita de sucesso, no caso, está na exclusividade nos direitos de transmissão de programas de popularidade no planeta, como os desenhos The Simpsons, Family Guy (Uma Família da Pesada) e seriados como The Glee, House, The Pretender e Saturday Night Live. Ao todo, são mais de 300 emissoras disponíveis ao usuário, número superior ao acervo dos canais pagos no Brasil. É considerada a principal invenção já desenvolvida pela “velha mídia” na internet – e, por acordos de direitos de reprodução e distribuição, está disponível exclusivamente aos Estados Unidos. Seu CEO, Jason Kilar, já foi executivo da Amazon e eleito um dos grandes profissionais de mídia, segundo o site de notícias Huffington Post.
Em sua fase embrionária, o Hulu criou artifícios para combater o câncer da indústria do entretenimento – a pirataria on-line. Os acordos com grandes estúdios permitiram a veiculação legal de conteúdos que eram distribuídos ilicitamente na rede. Não há mistérios em seu modelo de negócio: cada vídeo é precedido por anúncio, já que o acesso é gratuito. Cabe ao usuário escolher se quer ou não assistir à peça publicitária. Há ainda o serviço de assinatura mensal, por 9,99 dólares (menos de vinte reais), que permite assistir – em tablets, smartphones ou computadores – as temporadas completas de seriados e episódios exclusivos disponíveis no site. Estima-se que já exista um milhão de assinantes.
Como um foguete, veio o seu sucesso: segundo levantamento de junho da empresa de métricas Comscore, os americanos assistiram a 5,3 bilhões de vídeos publicitários, com o Hulu produzindo o maior número de impressões deste tipo: mais de um bilhão. É algo sem precedentes na curta história da web. No quesito audiência, o trono ainda é do YouTube, com 149 milhões de visitas únicas em território americano. Na ocasião, o Hulu é apenas nono site mais acessado no país, com 26 milhões.

Esses números não refletem, contudo, a lucratividade do negócio. Segundo o único registro desenvolvido há dois anos pela analista Spencer Wang, da CreditSuisse, o YouTube dá um prejuízo diário de 1,6 milhões de dólares diariamente ao Google. Para contornar o dano, o jornal americano Wall Street Journal revelou em abril que a gigante de buscas quer investir 100 milhões de dólares no YouTube para dar um formato “mais profissional” ao site, uma vez que todo o seu conteúdo é produzido por usuários da web. Os esforços do Google são evidentes – conquistar novos anunciantes e, consequentemente, aumentar a receita com publicidade. O Hulu, por sua vez, tem um lucro previsto para 2011 de 500 milhões de dólares, quase o dobro dos 263 milhões de dólares registrado no ano passado.
O conteúdo e suas ações colocam o Hulu no topo do segmento de vídeos na internet. Sobretudo, intensifica a concorrência no setor. Desde que a Comissão Federal de Comunicação dos Estados Unidos aprovou a compra da participação majoritária do canal NBC Universal (dona da Universal Pictures), pela Comcast (maior empresa de cabo dos EUA), a Disney e a Fox – outras duas empresas detentoras do Hulu – demonstraram preocupação com o futuro do serviço de vídeos on-line, uma vez que a aquisição deixou a Comcast com maiores poderes sobre o serviço on-line. Mas o próprio órgão americano refutou a estratégia e, no acordo, excluiu o Hulu do negócio. Mesmo assim, Bob Iger, presidente da Disney, confirmou a intenção: “queremos vendê-lo”. A declaração abriu espaço para que um curioso duelo virtual.
O Google e a Apple possuem serviços de TV – Google TV e Apple TV – que poderiam ser, de fato, mais populares. À gigante de buscas, sobretudo, a aquisição seria um novo trunfo para popularizar o Google+, uma vez que os adeptos à rede social compartilhariam ainda mais os vídeos assistidos. Mas, para chegar a tal patamar, falta conteúdo – ingrediente em abundância no Hulu. Para o Yahoo, que ainda é uma plataforma poderosa nos Estados Unidos, o serviço seria uma nova fonte de tráfego e receita.
Na última semana, foi a vez da rede de TV à cabo DirecTV demonstrar interesse pelo serviço. “O Hulu pode oferecer algo que nós não temos, que é disponibilizar conteúdo em qualquer hora e qualquer lugar”, admitiu Michael White, presidente da empresa, em uma conferência em San Francisco, nos Estados Unidos. É a quarta companhia interessado no serviço em menos de um mês – e uma nova tentativa de negociação que, pelo jeito, pode acabar como leilão: leva quem oferecer a maior quantia.
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