Projeto Cananéia – Energia Sustentável

Nos últimos anos foram raras as semanas que passei sem internet. Mesmo em viagens de lazer sempre dava um jeitinho para checar meu e-mail e passar os olhos pelos meus blogs favoritos. Para o desespero da minha namorada, isso significava perder alguns momentos preciosos em cybercafés ou dedilhando o celular. Coisas de viciado.

No entanto, na semana passada fiquei sem internet. Com os equipamentos de imagem e som nas costas fomos trabalhar no meio da natureza. Acordamos com as galinhas, comemos peixe fresco e dormimos em barracas às 19 da noite. Passei por um rehab tecnológico em um dos lugares mais bonitos do mundo e em nenhum momento senti falta do meu laptop.

Vista da voadeira do Pontal do Leste

Nós estávamos na Ilha do Cardoso (CANENÉIA-SP), mais precisamente na comunidade do Pontal do Leste, para gravar um documentário. Lá não tem computador porque é escassa uma das condições básicas para qualquer cidadão do século XXI: a eletricidade.

Eles tem lâmpadas, televisores e rádios, mas economizam no uso porque toda a fonte de energia vem dos raios solares e se o tempo estiver nublado isso pode significar perder o jogo de futebol ou a novela. Todas as casas são equipadas com placas fotovoltaicas e usar essa fonte de energia limpa e sustentável faz todo o sentido quando se está isolado e em pleno contato com a natureza.

Reunidos para assistir a novela.

Os moradores de Pontal do Leste são pessoas muito humildes e muito, mais muito simpáticas. Todos, sem exceção, são bons de papo. Apesar das dificuldades do dia a dia éramos sempre recebidos com um sorriso no rosto. Nas nossas longas conversas todos reivindicavam a mesma coisa: precisamos de mais energia.

Eles vivem da pescaria e do turismo. Com a baixa estação da pesca e a concorrência de grandes embarcações em alto mar, a quantidade pescada pela comunidade não é suficiente para vender em Cananéia. O combustível gasto no barco não compensa o lucro da pescaria. Uma solução seria estocar os peixes em freezer e geladeiras para então, com um volume adequado, partir para Cananéia (mais de 2 horas de viagem em um barco rápido). Com a pescaria fraca e sem geladeiras só resta salgar os peixes e torcer por dias melhores.

Sem geladeira a alternativa é salgar o peixe.

A falta de estrutura também prejudica o turismo. A eletricidade na comunidade não é o suficiente para suprir o conforto de todos. Imagine chegar de uma caminhada de horas e não conseguir uma cervejinha gelada? Ou não poder tomar um banho quente? E não conseguir usar o telefone se os dias foram nublados? São coisas muito simples, mas muito importantes para turistas que querem relaxar. Como declarou a Dona Rosália, uma das lideres do Pontal.

As placas solares instaladas há 10 anos não dão conta nem de uma geladeira. Por isso, como solução piloto, foi instalado um cata-vento de energia eólica (500W) na escola da comunidade. O cata-vento instalado pela ONG – IEI e pela Eletrovento é capaz de suprir toda a parte de iluminação da escola, uma televisão de 20, um aparelho de DVD e uma geladeira para ser compartilhada pelos moradores do Pontal do Leste. Nos regimes de chuva a energia eólica aparece também como um complemento adequado para as placas solares.

Uma escola equipada significa melhores condições de ensino. Como a Professora  Miriam nos falou só o fato de ter uma merenda não enlatada já é motivo de alegria. Além disso, ela pode agora reforçar suas aulas com vídeos educativos e recreativos.

As condições energéticas em Pontal ainda não são as adequadas, um cata-vento não é o suficiente, mas com o nosso vídeo e com o sucesso desse projeto piloto pretendemos ajudar a comunidade a chegar lá.

A questão educacional desse projeto é tão relevante que merece um post dedicado. Entrarei em mais detalhes quando falar de Cambriú, outra comunidade da Ilha do Cardoso que vamos visitar quando nossas baterias estiverem recarregadas. Até lá vamos trabalhando no documentário para mostrar como idéias simples, sustentáveis e de baixo custo podem melhorar a qualidade de vida de muitas outras comunidades ao redor do Brasil.

Fotos de Gabi Barreto.