“Impacto e uso de ‘mídia social’ no Jornalismo”

Conforme havia prometido, segue abaixo minha apresentação ministrada na Unisa – Universidade de Santo Amaro. “Impacto e uso de ‘mídia social’ no Jornalismo” segue na mesma linha traçada nas últimas palestras que fiz recentemente. Caso queira visualizá-las, há outros conteúdos disponíveis no Slideshare.

No mais, agradeço ao convite do professor Eric Carvalho, meu colega no mestrado, e aos alunos dos mais variados semestres de Relações Públicas. Lembrando que, nesta sexta, participo do Mashable Meetup, evento na ESPM – e com outra estrutura de conteúdo.

Há quem diga que os aplicativos irão salvar o Jornalismo…

Um dos fatos que mais me intriga nos últimos anos é a tentativa ininterrupta de buscar um produto, modelo ou fato para salvar o Jornalismo. Fala-se no fim apocalíptico do impresso, na lenda dos micropagamentos para direcionar a informação ao interagente e criação de modelos híbridos para gerar novas receitas em ambientes estruturados por tecnologias digitais conectadas. Pura especulação e nenhuma reflexão. Desta vez, chegou a hora de dizer que os aplicativos podem salvar os jornais.

Jimmy Wales, fundador da Wikipedia, concedeu uma entrevista no início do mês ao site da Associated Press sobre quais são os possíveis formatos para garantir a sobrevivência de publicações do Jornalismo. Para o empreendedor, as aplicações disponíveis em novos dispositivos conectados à web – como um iPad – podem ser a chave para resgatar o segmento, que se diz em crise há mais de 10 anos.

Wales se apoiou nas gigantes Apple e Google para comprovar seu argumento. E citou o termo “impulso” para garantir que publicações terão leitores querendo consumir seus conteúdos. Só esqueceu de lembrar da dificuldade de transferir modelos de negócio da música, por exemplo, para o mundo da informação.

Não é de hoje que sites noticiosos tentam encontrar a fórmula mágica para acabar com a queda de receitas de empresas. Os aplicativos – indispensáveis em tempos de acesso à web por tablets, celulares e iPods – podem, sim, contribuir para novos lucros. Mas não podemos colocá-lo como o salva-vidas do Jornalismo.

Na necessidade de sair à frente de seus rivais, muitas empresas do setor não fazem esforço algum ao pensar na perspectiva de como o interagente irá consumir o conteúdo. Resultado: os aplicativos são espelhos das publicações em outros formatos – impresso ou on-line. E é aí que mora o perigo.

Durante uma conversa que tive no Google com Chad Hurley, um dos fundadores do YouTube, ele soltou a seguinte frase: “conteúdos distintos demandam modelos de publicidade distintos”. Ou seja, o conteúdo é distribuído em várias plataformas, mas apenas sob um único formato, passo que todos as publicações já deveriam ter dado. Agora, há outro objetivo: falta adicionar o ingrediente “inteligência” aos dispositivos. Logo, chegou a hora das empresas de mídia aprenderem com a navegação do usuário.

Em tempo: estive ausente da produção de posts por conta do fim do Mestrado. Nas próximas semanas, vou disponibilizar minha dissertação para download no blog.

Foto: tismey.

‘O que faz um Editor de Mídia Social?’

Participei no último sábado do IV Seminário Tendências Conectadas nas Mídias Sociais, evento anual realizado na Faculdade Cásper Líbero organizado mais uma vez pelo professor Walter Lima e o jornalista Tiago Dória. Infelizmente não consegui acompanhar todos os paineis, mas recebi ótimas indicações de quem esteve por lá o dia todo.

Conforme havia prometido, segue abaixo a conversa que tive com os presentes, além dos ‘tuiteiros’ que acompanhavam o seminário via streaming. Foi uma honra ter a possibilidade de explicar o trabalho em VEJA ao lado de Rodrigo Martins, do Estadão, e Aninha Brambilla, do Terra – com quem eu não esperava dividir tão cedo uma mesa de discussões, já que sempre foi uma das minhas fontes de inspiração na área.

No mais, agradeço o convite do professor Walter Lima e a recepção de quem esteve presente no painel. Foi mais uma experiência bem interessante.

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Algumas das palestras já ministradas

New York Times Insight Lab pesquisa interesse pelo iPad

Insight Lab, pesquisa sobre iPad

Uma nova pesquisa do Insight Lab do jornal The New York Times disparada hoje chama a atenção dos contribuintes para o iPad, da Apple. As perguntas, que podem ser respondidas em cinco minutos, se focam no interesse do leitor pelo dispositivo da Apple, sobre a cobertura do NYT sobre o assunto e sobre a intenção de compra do produto ou similares.

Uma das perguntas deixa escapar o que, na minha opinião, é a verdadeira intenção do jornal: colher informações úteis para aplicações do NYT para iPad em desenvolvimento e formas de oferecer conteúdo.

If you were creating your very own New York Times app for the iPad, what would it include?
Please be as specific as possible.

If you were creating your very own New York Times app for the iPad, what would it include?

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Como não fazer um aplicativo de mídia para iPad

Um balanço do State of the News Media 2010

Uma leitura obrigatória para o primeiro semestre do ano aos jornalistas que trabalham em sites noticiosos é o The State of the News Media 2010. Em sua oitava edição – geralmente divulgado no meio de março e sob ponto de vista dos norte-americanos – o relatório guia o futuro do jornalismo, mas às vezes chove no molhado por ter uma publicação datada que envolve tendências.

Em 2009, abordou um tema que  envolve até hoje minha dissertação do mestrado: a inserção do cidadão na produção de um acontecimento ou fato. Na época, discutia-se se o leitor era fonte ou “apurador” de informação, discurso antigo e já ultrapassado aos moldes que a tecnologia permeou o ser humano no ato de comunicar-se.

Desta vez, o relatório aborda um importante dado sobre a possibilidade de sobrevivência apenas com publicidade. Os jornais, incluindo os online, perderam 26% de receita em 2009, reflexo da tendência de que o modelo não sustenta em si o negócio.

Outro ponto destacável é a importância que os agregadores de informação têm aos internautas hoje. Cerca de 56% dos entrevistados revelou usar um site que centraliza notícias, reflexo da amplitude que um Huffington Post tomou nos últimos meses. No entanto, a grande maioria afirma que visita de dois a cinco sites de notícia por dia, o que mostra a falta de fidelidade entre marca online e interagente.

De resto, acabou mais uma vez em “temas batidos”. Falou sobre o que considera-se por lá como “Jornalismo Cidadão” e chegou a uma conclusão já pré-estabelecida – sites colaborativos sofrem o mesmo problema do “Jornalismo Tradicional” ao tentar captar recursos. A melhor maneira de sobrevivência,  no caso, é parceria com empresa de mídia.

Foto: Alex Glickman.

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Jornais que ainda estão no século XX

A ABC pensa na integração de redações

Um dos jornais mais tradicionais da Espanha, ABC.es promove há algum tempo uma das maiores mudanças de pensamento desde a sua fundação, em 1903. O periódico iniciou em 2009 um projeto de integração de redações para promover a fusão entre o impresso e o on-line. Fato já consumado em marcas como Washington Post e BBC.

A estratégia mantém o discurso de seus rivais que já realizaram este processo – otimizar recursos e aproximar pensamentos para gerar o melhor modelo de conteúdo. A idéia é que os jornalistas da corporação sejam capazes de trabalhar em todos os suportes disponível. O velho conceito do profissional heterogêneo.

O processo de reestruturação já começou. Abaixo, um vídeo do que pode ser construído.

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A integração argentina de redações

New York Times e a cobrança por conteúdo online em 2011

New York Times

É, meus caros, tanto já se falou aqui no De Repente sobre a Crise nos impressos, sobre os novos rumos dos grandes meios de comunicação e hoje, em um texto oficial, o New York Times revela que cobrará pelo acesso a seu conteúdo online em 2011. Quando os usuários acessarem o site, vão receber alguns artigos gratuitos até serem cobrados pelo acesso total, revela o texto.

Uma mudança como essa, em um site de conteúdo tradicionalmente livre e de qualidade, tem sempre um único motivo, necessidade de mais receita (grana, $).  Se o NYT não está tão bem assim das pernas, como estariam então os outros grandes veículos dos EUA, ou ainda em mercados mais complexos, como o nosso? Afinal, o mercado brasileiro ainda não aprendeu a utilizar a internet para gerar receita, tanto que grandes veículos online se sustentam com a receita de suas versões tradicionais, impressas.

Houve um tempo em que o modelo de negócio dos EUA foi demonstrado como o mais eficiente, que o mercado brasileiro deveria se espelhar e trabalhar para atingir. Será mesmo?

A Famecos e a defesa do diploma de Jornalismo

Pode até ser um assunto batido, mas pelo menos trata-se de um dos poucos atos oficiais de instituições de ensino que vi até o momento. A PUC-RS, uma das maiores faculdades de Comunicação do país, disponibilizou na web e, em vídeo, sua defesa ao diploma de jornalismo.

Trata-se de um manifesto oficial da entidade se posicionando a respeito do polêmico tema que foi decidido há semanas no STF, Superior Tribunal Federal. Destaco-o simplesmente por fugir do lugar-comum. Instituições de renome paulista, como Cásper, USP e PUC simplesmente não comentaram ou não adotaram uma posição a respeito da desregulamentação da profissão.

Gastar menos tempo em sites de notícias não é sinônimo de queda de tráfego

audiencia-estados-unidos

Menos tempo em um ambiente noticioso, mas sempre informado. Este é o espírito de um estudo divulgado pelo instituto Nielsen que vi hoje no The Business Insider. Segundo a pesquisa, 17 dos 30 maiores sites de jornais norte-americanos perderam visitas em tempo médio.

No gráfico acima, quatro dos maiores jornais dos Estados Unidos tiveram um decréscimo de tempo de navegação do internauta comparando os meses de maio de 2008 e 2009. A maior queda acontece com o Wall Street Journal, publicação que defende com unhas e dentes um modelo de assinatura rentável em seu site.

WSJ adota uma espécie de modelo híbrido, misturando conteúdo pago com gratuito, atributo mais que elogiável pois é voltado a um nicho e que necessita da informação da publicação, “rara” hoje na web e em papel. É a velha máxima do quanto mais específico e fora do lugar-comum, melhor. Situação que a Last.fm e o Blip.fm não souberam lidar.

A métrica informada, por sua vez, vai na contramão aos números que divulguei aqui no mês de fevereiro. Na época, todos os citados acima – exceto o Washington Post – tiveram um crescimento. Destaque para o USA Today, que havia garantindo a segunda maior audiência no mercado local.

Mas em um todo, essa queda de segundos/minutos não é sinônimo de queda de tráfego. A página principal de um ambiente informativo não é mais a única fonte de tráfego para obter informações de um marca com New York Times, USA Today, Washington Post ou até mesmo Wall Street Journal.

A informação é uma espécie de sinédoque do canal informativo. Trata-se da parte de um todo. Um excerto extreamente essencial e imprescindível de um contexto que pode garantir o retorno a posteriori do internauta ao site.

Cada vez mais, as conhecidas “homes” perdem espaço para canais “alternativos” e extremamente participativos, como Twitter e Facebook. Por lá circula informação instantânea. O velho e bom buzz da rede. O Estadão conseguiu fazer isso muito bem ontem, com um bom post sobre as “subcelebridades” que acham que sabe fazer política no Twitter.

Plataformas sociais já são, há algum tempo, formas de contato com conteúdos de jornal. Não é à toa que grandes empresas de comunicação já começam a estudar a contratação de um gerenciador de mídias sociais, uma espécie de jornalista que tenha o faro e a experiência de apuração e reportagem, mesclado é claro à compreensão da dinâmica das redes.

Foi assim com o New York Times e The Guardian, lá fora. No Brasil, uso meu caso profissional com a Veja.  A página principal do site começa a dividir as mesmas atenções que o perfil no Twitter. Conversas diárias, troca de links e sugestões de pautas e matérias mostram o feedback positivo e a importância de ter um contato com o internauta.

Antes, havia apenas um holofote (home) que direcionava apenas a um lugar (conteúdo do site). Agora, novos focos de luz (aplicativos sociais) incidem no meio do trajeto e alcançam facilmente o mesmo espaço, seja físico ou não.

Michael Jackson, 11 de setembro e a informação

Não tem como não tocar no assunto que paralisou o mundo nas últimas 24 horas: Michael Jackson morreu – de forma um tanto quanto inesperada – aos 50 anos de idade por uma parada cardíaca.

Até então, todo mundo já sabe disso. O que me motivou inicialmente  a escrever este post foi o porquê de “todo mundo  já saber disso”, apenas algumas horas depois do ocorrido?

Entusiastas provavelmente encheriam o peito para afirmar que a informação tem essa velocidade de atingir as pessoas hoje por causa da internet. Eu iria mais adiante. Ou menos adiante: a velocidade da informação já atingiu, para nós, seu limite há um bom tempo, e a internet não é o principal fator disso.


Difícil de acreditar que realmente aconteceu

Para explicar faço uma analogia com o 11 de setembro: quando a notícia de que o primeiro avião atingiu o WTC veio à tona  eu estava num hotel na Costa do Sauípe para assistir o Brasil Open (sou um grande fã de tênis). Coincidentemente a TV do quarto estava ligada. Eu me lembro bem: em menos de 10 minutos depois do acontecimento já havia uma cobertura no local comentando e especulando sobre o ataque terrorista.

A mobilidade da mídia permitiu que o segundo avião virasse um espetáculo macabro transmitido ao vivo para o mundo. Foi impressionante. O mundo parou e em função da velocidade com que as informações apareciam na TV: em poucas horas só se comentava isso. Todos os estabelecimentos da Costa do Sauípe tinham a TV ligada na cobertura do ataque durante o torneio inteiro. Eu e meu pai vimos os jogos, claro. Mas o 9-11 foi o que marcou a viagem.

Em 2001, a internet ainda engatinhava. E hoje, é jargão nos meios de comunicação afirmar que a informação trafega cada vez mais rapidamente em função dela. Do ponto de vista da capacidade de atingir as pessoas em geral talvez isso não seja tão verdade. A informação já é rápida – muito rápida – há um bom tempo.

Homenagem um tanto quanto inusitada ao astro

E isso é interessante: dessa vez, fiquei sabendo da morte do Michael Jackson pelo twitter. Despretensiosamente tentando aumentar meus seguidores num fim de tarde chuvoso micro-posts  sobre a possível morte do astro começaram a surgir de várias fontes. Em poucos minutos e depois do ‘furo’ da TMZ, vários sites de notícias começaram a especular e a cobrir o acontecimento (aproximadamente às 21hs já havia mais de 1000 artigos publicados sobre o tema).  Logo após os rumores, liguei a TV e a Globo estava com um plantão relutando em confirmar a morte.

Confirmada ou não a informação já estava efetivamente lá. Minha mãe chegou em casa do trânsito logo em seguida falando “Você viu?”. Ou seja, no rádio também só se falava nisso. A maioria dos outros canais de TV também se mobilizava.

Enfim, o que me fez pensar um pouco foi que a informação já trafega de forma quase instantânea há um bom tempo. Estamos de certa forma conectados instantaneamente com a informação muito antes da popularização da internet. Tragédias como o 11 de setembro e a morte de Michael Jackson são exemplos disso. A TV ainda mantém o trunfo de “juntar” 40 pontos de audiência de pessoas todos os dias na frente de sua tela para ouvir cariocas falando “namashtê” depois do tradicional noticiário das oito e pouco. Ela ainda é a principal fonte de assunto na sociedade brasileira. Novelas, jornais, futebol ainda têm na TV sua maior plataforma de contato com o público.

E isso nos traz a um ponto central na discussão: por que o Jornal Nacional só confirmou a morte quase no final da edição de ontem? De cara eu pensei que manter o suspense da confirmação de algo que já era fato na internet pelo menos meia hora antes do começo do jornal era uma manobra para mobilizar e atrair a audiência. Pode ser. Mas enquanto escrevia esse post percebi que talvez a questão seja menos, digamos, perversa: diferente de um site de notícias na internet que tem mobilidade e capacidade de atualização instantânea e uma audiência extremamente volátil e dinâmica, o Jornal Nacional tem uma única edição diária e a responsabilidade de trazer notícias a milhões de brasileiros que o têm como sua fonte principal de informação.

Responsabilidade e compromisso com milhões de espectadores: pelo menos em tese

Se o Jornal Nacional publica a confirmação da morte de Michael Jackson sem ter uma fonte segura e isso resulta em não ser verdade eles podem abalar um compromisso de credibilidade que têm com uma audiência muito mais tradicional e massiva no Brasil.

Com a internet potencializou-se, sem dúvida alguma, a capacidade de articulação e de troca de informações no mundo inteiro. As pessoas estão muito mais conectadas diretamente entre si etc. Mas não podemos negar a importância ainda gigantesca da televisão:  eu arrisco dizer que ela ainda é nosso parâmetro principal de percepção do mundo.

Quem sabe as próximas gerações não tenham um entendimento do mundo mais moldado pela internet. Os resultados disso ainda estamos por ver. Mas no que condiz à informação, ainda estamos inquestionavelmente acondicionados pela televisão.

A Internet ainda engatinha no Brasil como fonte de informação segura e de credibilidade.  E mesmo ainda sendo uma ‘criança precoce‘ já mudou nossa sociedade de várias maneiras. É preciso ter um pouco de calma para que ela não cresça traumatizada com seu sucesso estrondoso tão cedo e acabe virando notícia no plantão do Jornal Nacional.