Entrevista com André Avorio, evangelista do BarCamp Brasil

O De Repente segue com uma série de entrevistas envolvendo pessoas ligadas à área de colaboração. A entrevista a seguir é com André Avorio, evangelista do BarCamp Brasil, gerente de projetos da agênciaBlaz e ex-coordenador do projeto Radar Cultura. Conversei com André há quase um ano, durante um projeto de graduação na universidade. O interessante é ver como seu discurso é atual e merece relevância, mesmo com as reformulações tecnológicas e comunicacionais durante os últimos meses.


“Portais usam a colaboração apenas para pageviews”

Avorio é um dos grandes responsáveis, ao lado de Juliano Spyer, de criar um ambiente extremamente interessante e totalmente colaborativo durante a Virada Cultural de 2008 com o Radar Cultura, um hub de informações e símbolo de um ambiente agregador de ferramentas sociais na época. Hoje, André está na Inglaterra, estudando Information Management for Business na Universidade de Londres.

1 – Juliano Spyer, que coordenava com você o Radar Cultura, escreveu sobre o motivo do Jornalismo Colaborativo não “decolar” nos portais nacionais. O que você considera essencial que ainda falta como ingrediente para a excelência da construção do cidadão neste processo informacional.

Eu te retorno a pergunta: o que seria “decolar”?

2 – Decolar é uma expressão do Juliano. O que falta para o cidadão ajudar no processo informacional e criar um bom espaço virtual destinado à colaboração?

Olha, eu sou bastante cético sobre o assunto. Não acredito na estratégia que os portais criaram para definir o Jornalismo Colaborativo. Ainda não sei o que é “dar certo”. Não sei qual objetivo de cada formato, mas quando você pensa em colaboração, acredito, e muito, na autopublicação. Pelo fato de você produzir conteúdo que lhe interessa. Isso é muito mais poderoso e revolucionário. Sigo esse caminho. A criação de ferramentas tecnológicas que promovem e a ampliam o poder do cidadão.

3 – Qual a opinião de vocês sobre o OhmyNews? É um dos principais serviços destinados ao Jornalismo Colaborativo?

É simples. Eles propõem uma linha editorial muito bacana. O OhmyNews não recebe notícias que a “grande mídia” cobre. Fora do lugar-comum. Uma grande estratégia. Eles colocaram isso como evidência desde o início do projeto e possui um retorno. Retornando até a primeira pergunta, os portais buscam apenas um retorno: a audiência, o pageview. Isso não interessa às pessoas. Não acaba cumprindo um papel interessante.

4 – O OhmyNews lançou, ao final de 2007, a primeira Escola de cidadão-repórter. O que você pensa sobre a instalação da escola?

Não cheguei a olhar, com detalhes, o programa e os objetivos. Se a iniciativa do OhmyNews for a disseminação e união entre tecnologia e público, a idéia é fantástica.

5 – Sobre mídias colaborativas em geral. O que dá certo lá fora que, quando chega ao Brasil, não tem o mesmo resultado?

Cara, uma coisa que eu vi recentemente (há um ano), e achei fantástico foi empréstimo bancário pela internet em base de comunidades. É assim: um sujeito se oferece e diz que possui 50 reais para emprestar e gostaria de ganhar uma taxa x durante seis meses. Mídia social é isso. Transformar bancos em mídias colaborativas. As pessoas ficam em contato, a partir dos termos de uso e regulamento, e realizam o empréstimo. Isso é revolucionário. Conectar pessoas é a chave de tudo.

6 – Vocês consideram imprescindíveis a construção de um encontro off-line entre os considerados produtores de conteúdo de ambientes virtuais colaborativos?

Eu sou entusiasta da internet. Mas o que mais me encanta são as pessoas. A internet é mais um meio de encontro de pessoas. Os projetos que têm isso como objetivo acabam dando certo. Quando elas se conhecem, muda tudo. É fantástico compartilhar idéias, histórias. No caso do Barcamp. Deu muito certo no Brasil. Lá em Floripa, por exemplo. Tinha um cara com o mesmo interesse do seu grupo em Jornalismo Colaborativo. Mas ninguém compartilhava as mesmas idéias na região. A criação do Barcamp em Santa Catarina promoveu o encontro de idéias e, hoje, ele conversa com o pessoal em grupos de e-mail sobre Jornalismo Colaborativo. Esse uso da internet é importante.


Juliano Spyer (à esq.) e André Avorio (à dir.): ex-coordenadores do Radar Cultura

7 – RadarCultura e Viva São Paulo. Dois dos principais exemplos de colaboração de respeito no país. Como é essa experiência e por quais motivos eles são mais bem-sucedidos que os canais de participação de usuário nas mídias on-line?

O RadarCultura foi criado em outubro de 2007. O objetivo era repensar e reformular o projeto da Rádio Cultura AM, da Fundação Padre Anchieta. Eu e o Juliano recebemos um convite da entidade e concordamos com o planejamento do projeto. A emissora não tinha um posicionamento, possuía um custo elevado e uma quantidade limitada de ouvintes. Nós tínhamos uma série de problemas para resolver e a nossa arma foi a ferramenta de colaboração. Começamos com um programa diário, das 20h às 22h. Quem fazia a programação era o ouvinte/internauta do Radar Cultura.

Neste momento, a pessoa indicava músicas, criava playlists. Tudo para produzir conteúdo. A receptividade do público foi muito legal no começo devido ao lançamento. Isso acabou “catapultando” a programação e, em pouco tempo, conquistamos cinco horas de programação, de segunda à sexta, além de duas horas de finais de semana.

O crescimento atraiu pessoas e trouxe trabalho. Criamos um espaço para o indivíduo comum se expressar através da música. Isso preencheu cinco horas diárias. O RadarCultura começou pontualmente como um programa de rádio e hoje funciona como uma plataforma de colaboração.

O acervo de mais de dez mil músicas cadastradas tornou-se um ambiente de pesquisas. Hoje, a estrutura do site causou a integração de vários programas da Rede Cultura. Conteúdo da comunidade se mistura com um conteúdo da Fundação Padre Anchieta. O RadarCultura é focado nas pessoas. Isso trouxe retorno a nós. Nossa iniciativa é pioneira na América Latina. Bandas independentes ganharão espaço. Quem vai definir tudo isso será a comunidade em torno do programa. Nada de lobby, favorecimentos ou editor que hierarquiza músicas.

Foto: Flickr do Avorio, Schröedinger’s Cat.